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Fazendo a "de fora"

Divisão de Base: Atender ao Time de Cima ou ao Mercado?

Divisão de Base: Atender ao Time de Cima ou ao Mercado?

Lida a excelente coluna do André , com a qual concordo integralmente, gostaria de começar por uma definição bem simplista de um antagonismo de perfis que existe no futebol:

Torcedor – Cliente do esporte e de sua paixão clubística (ave Nélson), quer que seu time ganhe tudo, não quer saber se seu time dá lucro no fim do ano, é amador. É geralmente ufanista, quase sempre parcial, capaz de mudanças de comportamento absolutamente bipolares e incoerentes, ou seja, uma perfeita descrição de um eterno apaixonado. E não vai aí nenhuma crítica a este “comportamento”, que é humano e está dentro de todos nós, mostrando sua cara em quase todos os momentos, sendo o “produto” mais nobre destes sentimentos de dimensões incalculáveis que o futebol proporciona.

Gestor – Diretor e facilitador dos produtos e serviços capazes de produzir os objetivos de missões e visões, que visam o atendimento dos clientes e maximização do lucro. Realista, centrado, racional, coerente e com suas ações baseadas em números e indicadores internos e mercadológicos. Inovador, sempre, mas com base em análise de muita informação e não em sonhos indecifráveis.

Aí você pega estes dois perfis e vai pra dentro de um clube de futebol e vê isto totalmente misturado: os gestores no futebol são torcedores, normalmente da própria agremiação que dirigem, nunca deixarão de ser e o conflito é inevitável, parecido com o conflito que quem tem o chapéu da analise tem com o do seu chapéu de torcedor, que abordei em uma outra coluna .

Ok … o que isso tem a ver com divisão de base?

Cite um torcedor, principalmente aquele que está mais perto do clube, acompanhando mais de perto os garotos jogando, evoluindo, que não aposte no futuro deles como a saída para que não seja preciso trazer jogadores prontos, caros, desvinculados da camisa, que jogam só pelo salário e estão pouco se lixando? Párias que até cometeram o pecado mortal de jogar em algum rival direto! Que Deus os perdoe e os salve do fogo do inferno por isso. Conhece algum? Eu não.

Pois é. Não duvide que esta idéia está na cabeça de cada gestor de clube, pelo fato de que ele é, num grau maior ou menor, um torcedor como este aí do parágrafo acima e se ele não souber trabalhar politicamente com estas cobranças, será inevitavelmente criticado por não ter seguido nesta linha, mesmo que este seja apenas um de um conjunto de motivos que levam a não atingir os objetivos, ou pior, mesmo que este simplesmente não seja um motivo.

Reconheçamos que ouvimos todos os dias, em todos os clubes, que sempre está em andamento a formação de um novo novo Carlos Alberto ou novo Zico ou novo Pelé ou novo Maradona … no futuro estarão sempre sendo formados os novos Neymar ou Messi.

Esta supervalorização, embora também tenha uma pitada de marketing para expôr para o mercado com um valor agregado, só é possível porque o torcedor quer reconhecer esta possibilidade acontecendo dentro do seu clube. Isso o alimenta, o orgulha, gera esperança e o traz pra perto das gestões.

Mas em 99.999% das vezes isto não é uma realidade.

Divisão de base forma muito mais pro mercado do que pro clube. Ponto. Clubes grandes não produzem times campeões com base em jogadores subindo. Outro ponto. Time campeão, competitivo, é formado com base em jogadores prontos, maduros, acostumados ao futebol profissional e, de preferência, a ganhar títulos.

Acontecerá, sim, um aproveitamento maior de jogadores que foram formados no clube e de lá foram pro mercado e voltaram. Nisto pode até mesmo haver uma estratégia envolvida, mas estes também já voltam prontos como outros quaisquer.

Futebol profissional é muito diferente do futebol de base e os clubes grandes, na maior parte das vezes, não conseguem assumir os riscos e custos desta adaptação, deste estágio, até porque a cobrança do próprio torcedor é implacável. Os tantos cuidados que devem ser tomados com jogadores subindo, evitando “queimar”, são realmente importantes. O mais importante deles talvez é que jogadores que sobem se adaptam melhor entrando em times já equilibrados no profissional. Quando você vê um time cheio de jogadores que acabaram de subir há algum problema importante na formação de elenco. No mínimo uma falha no critério de qualidade e no planejamento da subida e do aproveitamento.

Embora hoje, num futebol muito mais tecnológico, se pense mais em formação de times de base aprendendo a vencer e ganhar títulos como um novo tipo de “fundamento”, aumentando as chances de “dar jogador”, como se diz na linguagem boleira, a base não é feita para formar times e sim valores individuais, que podem servir sim para times campeões para o clube no profissional, normalmente servem e é raro não ver num clube campeão pelo menos um jogador que subiu bem e ocupou o seu espaço, é lógico, mas até estes serão colocados no mercado para gerar receitas fundamentais, principalmente quando se fala em futebol brasileiro, que sem isso, não sobrevive.

E é o mercado que escolhe o jogador que ele quer levar e que dita o preço, pagando bem somente por quem joga bem. Um Neymar paga o investimento em base por anos e forma dois times competitivos. Como não liberar? E mais ainda, liberar torcendo para que haja mais diversas negociações com ele, para que pingue o quinhão que cabe de clube formador.

Sem falar no principal, que todos costumam ignorar: não é só o clube que quer colocar no mercado, o jogador também quer ir, suas melhores oportunidades estarão lá. Não dá pra segurar.

Então, concordo demais com a coluna do André, mas infelizmente acredito que no Fluminense ou Flamengo ou Corinthians ou até o badalado e novo rico Palmeiras, assim como em qualquer gigante brasileiro, o jogador que vai pagar a conta continuará sendo o melhor, o destaque, seja ele oriundo da base ou não. A perda do elenco com isso sempre será colocada no aspecto do “vendemos um jogador em 30, não pode fazer tanta diferença e precisamos pagar as contas”. Sabe-se que faz diferença, mas é preciso ter uma ótica positivista em relação a isto. Pra ser diferente disso, muita coisa teria que ser diferente também.

Planejar, negociar bem ou mal, para contratar ou distratar, saber o momento certo de fazê-lo, valorizar ao máximo, com todos os riscos envolvidos nisso, são competências que têm que estar a cargo de profissionais gabaritados. Gestores e executivos que avaliam as possibilidades para maximizar o retorno. Infelizmente, na maior parte das vezes, não é isso que acontece, por questões de poder e política interna e até por conta do conflito de perfis que expliquei acima.

Mas uma coisa nunca pode se deixar de ter em mente. Todo time grande tem que entrar nas competições em condições de conquistá-las. As oportunidades de receita no futebol vëm todas disso. Sim, se necessário será preciso investir, muitas vezes o que não se tem, para que não se perca o contato com o torcedor, que é o trem pagador de tudo. No fundo, o torcedor não quer o jogador A ou B, da base ou não, mas sim os títulos em disputa. E junto com os títulos a oportunidade de mais torcedores, mais receitas, mais produtos, mais parceiros, mais títulos … num círculo virtuoso. E para fazer isso o gestor não precisa ser torcedor, mas tem que entender os anseios deste profundamente. Ouví-lo com toda atenção e atendê-lo por estratégia.

Um grande abraço para todos os amigos do Futebolzinho!

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Antônio Ramos avatar
Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

5 Comments

  1. Regina Carino avatar

    Texto irretocável!
    Parabéns, Antônio!
    Vc enriquece esse espaço, sempre.

    Um abraço!

  2. Fernanda Souza avatar

    Sensacional… onde assino? rs

  3. Santoro avatar

    Vale para todos os clubes!

  4. Abigail Cavazos avatar

    Excelente texto, Antonio! Toca em todas as vertices do Futebol, no lado torcedor e gestor!

  5. Dedé Moreira avatar

    Excelente Antônio, exatamente isso

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