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Fazendo a "de fora"

Foi Fácil Ser Fluminense

Foi Fácil Ser Fluminense

Esta coisa de tentar entender os motivos pelos quais escolhemos (sera?) algo pra torcer, esta coisa que é capaz de ser absurdamente intensa e ao mesmo tempo única, é algo que remete muitas vezes a uma reflexão profunda, quase psicanalítica.

Digo isto porque este entendimento acaba fazendo com que você entenda também coisas mantidas obscuras em relação às suas origens e o que você é.

Este é um amor único, diferente de todos os outros, incondicional e eterno como muito poucos se apresentam. Difícil elucidar onde realmente começa, uma vez que já sabemos de antemão que não terá fim.

Amor pelos pais, por filhos, por amigos, por parceiros afetivos, estes tão intensos quanto condicionais, podem todos ser parecidos, até mesmo simbióticos, mas nenhum deles é exatamente igual ao amor que temos, por exemplo, pelo clube que torcemos.

De onde vem isso e qual o segredo desta “eternidade”?

Bem, somos animais e fazemos associações a coisas e situações que nos remetem a prazer, paz, tristeza, raiva, medo. Associe algo que seu cão fez a uma situação que lhe cause tristeza ou medo que ele tenderá a não fazer novamente. Da mesma forma, associe um carinho ou uma situação qualquer de prazer a algo que ele fez que ele tenderá a fazer continuamente.

Assim funcionamos basicamente. Claro que há as benesses (e “malesses”) da racionalidade, que é um “sistema” que nos permite não só adquirir e difundir conhecimento, mas também criá-lo e aprimorá-lo para o nosso bem e até mesmo o bem comum, mas de fato o nosso “sistema operacional” tem no seu “core” associações em busca de sensações.

Voltando ao “amor clubístico”, todos os clubes são iguais. Claro que este amor faz com que você, até mesmo inconscientemente, tente criar e acreditar piamente em diferenças e motivos racionais que justifiquem sua escolha por supostamente um ser melhor do que o outro, o que, diga-se de passagem, é o grande barato da rivalidade, mas na prática não há de fato esta diferença. São todos muito parecidos, com os mesmos objetivos, com os mesmos fins.

A questão está basicamente centrada no que de positivo você associou a ele, que vem antes do processo racional.

Raimundo Ramos estaria fazendo hoje 85 anos. Nascido no Pará, longe dos grandes centros, órfão de pai e mãe desde os 12 anos, sem TV, sem Internet, sem telefone, só ouvia, e não compreendia a maior parte, o que era dito de um rádio de válvula de um vizinho, que precisava ser desligado de 2 em 2 horas, ficando desligado no mínimo 1 hora para esfriar, senão queimava.

Não teve acesso a nada, via futebol esporadicamente, gostava mais do Remo do que do Paissandú, mas tornou-se Fluminense desde que ouviu, pela primeira vez, falar nesse clube. E quando veio para o Rio tentar a vida, comentava ele, uma das mais prazerosas motivações para sua mudança seria poder ver o Fluminense jogar.

O que terá feito Raimundo estar tão associado ao Fluminense? Ele nunca se preocupou em explicar ou entender. Certamente existiu algo, mas pra ele era obscuro ou, simplesmente, sem importância. Valiam os fins.

Raimundo era determinado, estudioso, escritor, poeta, sensibilidade incomum, agregador, generoso, leal, um ser humano sem preço, como não me lembro de ter conhecido outro na vida, incapaz de fazer mal a alguém, de ser alheio ao sofrimento dos seus e de todos.

Pai incansável, na sua simplicidade ímpar, na sua ausência total de ganância e maldade, teve todos os reconhecimentos em vida. Não teve e não se importava com o sucesso financeiro que todos vivem almejando sem nem questionar o porquê, se isso realmente é o que viemos fazer aqui. Foi um sucesso como ser humano. Um vencedor. Um verdadeiro ídolo.

Eu, filho dele, me aproveitando de tudo isso, tive a vida muito mais fácil. Quando tento entender as escolhas que fiz, como pra quem dar o meu “amor clubístico”, ora, é tão fácil e tão óbvio … só poderia ser o time dele. A escolha dele lastreou a minha de uma forma tão inequívoca que simplesmente se sobrepôs.

E de tudo que sinto saudade hoje, esta é uma lembrança que me reconforta e me orgulha.

Foi muito fácil ser Fluminense por causa dele. Quem discorda da escolha, o que é lícito, discorde de mim. Quem concorda, que renda a ele as homenagens que merece.

Feliz aniversário, pai. Obrigado por tudo que fez, faz e ainda fará por mim. Espero conseguir ser pelo menos 10% do que você foi.

E que o Fluminense faça por merecer o seu, o meu, o nosso amor incondicional.

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Antônio Ramos avatar
Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

6 Comments

  1. Frank Cavaliere avatar

    Bela homenagem! Parabéns ao Sr. Raimundo!

  2. André Fernandes avatar

    Belo texto!! E ainda mais bela a história! Parabéns ao Sr. Raimundo!

    O mundo sempre precisará de mais pessoas como ele!

    • Antônio Ramos avatar

      Precisará, sim, André! Mas meu irmão, tá difícil de achar. Enquanto isso, eu tento manter ele vivo aqui nas minhas atitudes, carregando a bandeira. Vamos em frente. Obrigado, irmão !

  3. Regina Carino avatar

    Que lindo texto, Antônio!!!
    Você é um sortudo por ter tido o Sr. Raimundo como pai e o Sr. Raimundo foi um sortudo de ter tido um filho como você!
    Os dois Tricolores!
    Precisa dizer mais alguma coisa?!!

    Abraço bem forte, Antônio!

    • Antônio Ramos avatar

      Obrigado, querida ! Não sei se ele teve tanta sorte quanto eu, rs,mas eu me esforço pra caramba pra fazer valer o que ele me ensinou, mesmo tendo um espírito muito menos evoluído que o dele .

      Sabe, casos como o do meu pai são milhares, talvez milhões: torcedores anônimos que simplesmente se conectaram aos clubes sem uma razão lógica específica. Estes caras, pra mim, são os grandes responsáveis pelo vulto dos clubes e do futebol em geral.

      Não se vê nenhum movimento de clube algum, e não é só no Brasil, não, para dar um mínimo de reconhecimento e notabilidade para pelo menos alguns destes caras. Acho triste,

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