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Fazendo a "de fora"

O Suposto Racha dos Grandes do Rio

O Suposto Racha dos Grandes do Rio

Desde o ano passado, estamos assistindo a uma espécie de racha entre os grandes clubes do Rio de Janeiro:

Vasco e Botafogo, alinhados com a Federação, Flamengo e Fluminense, desalinhados.

Na verdade, este desalinhamento seria mais abrangente do que simplesmente isso. É (transformado em) um racha de objetivos e modelos de administração de futebol.

O que haveria de verdade em relação a isso, realmente?

Na minha opinião sincera, muito pouca coisa. O que me parece haver realmente são alianças políticas fracas para objetivos (bem) pontuais.

Claro que ao analisarmos as situações de cada clube parece, assim, à primeira vista, que há uma diferença razoável entre um lado e outro e muitos objetivos em comum.

Flamengo e Fluminense hoje são clubes que vendem melhor seus modelos administrativos, têm gestores com menores taxas de rejeição, novos no futebol e que se posicionam contra algo que tem sido ruim para todos, indistintamente, que é a Federação, dando a impressão de estarem procurando um caminho melhor, mais alinhado com o peso de suas marcas e uma possível, mas ainda não comprovada, capacidade de capitanear uma organização ou liga paralela.

Já o Vasco, apesar de ter mais receitas que Fluminense e Botafogo, no que diz respeito à TV, que é indubitavelmente a receita mais significativa da matriz, vem mostrando, ao longo do tempo, tanto na administração Dinamite quanto na do Eurico, problemas enormes para conseguir coisas que deveriam ser relativamente simples para ele como, por exemplo, montar um time que pelo menos consiga se manter sequencialmente na 1a divisão. Isso sem falar nos constantes e alardeados problemas de infraestrutura. Alia-se a Federação em busca de privilégios meramente regionais, mostrando o quão aquém da sua grandeza ele é percebido por seus próprios gestores (se é que existe mais que um).

O Botafogo, ainda não entendi exatamente por que motivo, aliou-se também à Federação e ao Vasco por consequência, num feudo retrógrado em busca de vantagens a partir de trocas de apoios e favores normalmente baseados em rabos presos.

Minha visão é a seguinte:

As alianças dos clubes em relação a objetivos organizacionais e estruturais é fundamental para que haja mudanças significativas que beneficiem a todos, porque parece óbvio que não está bom pra ninguém.

Por outro lado, elas nunca serão totalmente funcionais, porque não se consegue diferenciar mudança de estrutura do negócio de mudança do resultado financeiro e esportivo.

Como assim? Vou exemplificar:

Toda vez que se pensa em uma nova estrutura organizadora do futebol, como ligas dirigidas pelos próprios clubes (como se tentou com o Clube dos 13), ela vai falhar porque um ou vários clubes, que gozam de privilégios nesta estrutura atual, vão tentar quebrá-la ou por que terão que dividir mais num primeiro momento ou porque terão que se esforçar mais administrativamente para formar times melhores numa estrutura equalitária. Pensam assim sem enxergarem um palmo a frente de seus narizes e entenderem que esta estrutura nova possibilita a abertura de novos ítens na matriz de receitas, além do aumento das receitas hoje já exploradas a longo prazo.

Outro exemplo? Toda vez que se falar em uma partilha mais justa de cotas de televisão, que na estrutura doente do futebol brasileiro acaba sendo a fonte de receitas mais importante, os que hoje ganham inexplicavelmente muito mais que os outros vão tentar inviabilizar quaisquer mudanças. Os motivos e a falta de visão são os mesmos explicados acima.

Assim sendo, na minha humilíssima opinião, temos alianças de barbante esfarrapado, com objetivos pontuais, desestruturados, estanques, ou seja, apertam-se as mãos direitas e as esquerdas, escondidas, estão vestidas com um “soco inglês”, pronto para ser usado na primeira oportunidade.

É preciso mudar a cultura dos gestores atuais do futebol e incluir visão empresarial e estratégica aliada ao conhecimento do modelo deste negócio, para que os clubes entendam que têm, sim, alguns objetivos em comum, principalmente estruturais, que gerarão melhorias que transcendem os aspectos atuais de suas captações ou resultados esportivos que, como vemos, são na maior parte das vezes sazonais: um ano é campeão e no outro está caindo ou prestes para cair para divisões inferiores, numa situação falimentar permanente e as vezes maquiada por um mecenas ou patrocinador temporário.

Por isso, de fato, reduzindo o escopo ao Rio de Janeiro, que usei para exemplificar, não acredito em clubes unidos de forma verdadeira. Continuam com a mentalidade de tentar tirar sempre vantagem unitária das situações e tentando destruir os supostos concorrentes, como se pudessem existir e sobreviver sem esta coexistência. Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo precisam que todos sejam competitivos e fortes, para que todos se beneficiem disso num produto de melhor qualidade, que atraia mais o torcedor cliente e até mesmo para que possam realmente comemorar enfaticamente as suas vitórias esportivas.

Torcer a favor ou contra o outro tem que ser somente dentro das partidas, nas quatro linhas, pelo menos para os gestores.

Mas o perfil para ser gestor no futebol brasileiro é, primeiro, ser torcedor do clube, segundo, ter um grupo político de aspones e bobos úteis à disposição (ou será que este é o primeiro?) e, terceiro, mas apenas “good to have” (para a maioria, “not so good”), saber gerir e conhecer futebol e o seu negócio …

Isso só indica que, infelizmente, estamos longe, muito longe, desta compreensão.

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Antônio Ramos avatar
Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

10 Comments

  1. Lucas avatar

    Nosso futebol está muito longe de ser profissional

  2. Frank Cavaliere avatar

    Concordo Antonio… hoje em dia relacionamento é muito mais do que essencial

    • Antônio Ramos avatar

      Relacionam-se como torcedores na arquibancada e não como partes integrantes de um negócio milionário.

  3. Dedé Moreira avatar

    Excelente texto

  4. Yago Monterrey avatar

    Às vezes penso que os presidentes são marionetes dos conselhos ou diretores. Mudam um ou outro mas não há um diálogo contundente entre os clubes. Os conselhos estão mais preocupado com os empresários e como fazer mais $ com compra e venda. Relacionamento e clube vem em segundo lugar

    • Antônio Ramos avatar

      Os presidentes ascendem ao poder a partir desta própria estrutura de conselhos deliberativos, que são um verdadeiro covil de sócios em busca de privilégios, exposição e influência política, sem nenhum pré-requisito ou preparo em relação ao que inicialmente está função deveria agregar. O negócio é ter quantidade, em vez de qualidade, porque isso é o que vale pra ganhar eleição e manter-se no poder.

  5. Haroldo Silis avatar

    Amostra grátis está nos demais clubes que participam do tão sem graça campeonato carioca. A federação deveria pensar uma maneira de revitalizar os menores clubes, tentar trazer Bangu e América para cumprirem um papel de destaque. O produto (campeonato carioca) apesar da contrastante audiência devido a quantidade de torcedores fora do RJ é pra lá de ruim: regulamento, equipes e público nos acanhados estádios.

  6. Antônio Ramos avatar

    Sim, Haroldo, a Federação sõ tem objetivos políticos e de manutenção de poder e não tá nem aí para uma revitalização do futebol carioca que seria bom para todos, mas a verdade é que os grandes compactuam com isto. Mesmo Flamengo e Fluminense que tentam se mostrar desalinhados, acabam aceitando bizarrices como este campeomato deste ano. Gestões sem noção do tamanho e importância que têm, procurando apenas vantagens imediatas e dentro de seus mandatos,

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