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Fazendo a "de fora"

A quem realmente interessa profissionalizar a gestão dos clubes?

A quem realmente interessa profissionalizar a gestão dos clubes?

Em algum momento, de algum político, dirigente, torcedor, comentarista esportivo, filósofo universal ou aspone, todos nós já ouvimos comentários a respeito da necessidade de profissionalização da gestão do futebol, principalmente nos clubes.

É fato que a palavra profissionalização tornou-se uma daquelas chaves de solução axiomática para tudo. Um tipo de encerra discussão vitorioso, não necessariamente fazendo uma análise crítica dos objetivos desta e não necessariamente entendendo o que se pretende de resultados, ou seja, é a solução ou o começo dela, mesmo que não se saiba exatamente o que isto signifique.

Mas convenhamos, mesmo assim, meio turvo, parece realmente algo bom, não? Afinal, que tem gente que parte pra isso e tem bons resultados.

A estrutura de poder e gestão dos clubes brasileiros, que não é muito diferente da grande maioria dos clubes pelo mundo, é de característica representativa e política, mais ou menos parecida com a constituição dos membros dos poderes executivos e legislativos no país. Grupos de sócios contribuintes elegem chapas, formadas por pools de grupos políticos, aliados ou não, que se formam para concorrer a administração e gestão por um período determinado (mandato).

Nas chapas que se formam, normalmente uma representa a continuidade da gestão atual e por ela (e pela máquina do clube) é apoiada. Outras chapas se formam representando oposição, algumas mais radicais, outras mais ao centro, enfim, representativas de grupos que atuaram politicamente de forma mais crítica. Como eu disse, modelo prá lá de conhecido.

E o que tem isso a ver com profissionalização da gestão? Eu, particularmente não vejo ligação nenhuma e é justamente aí que quero chegar. Parece a antítese … Vamos em frente, então.

Profissionalização da gestão tem que ter, obrigatoriamente, alguns conceitos associados. Cito alguns importantes:

– Conhecimento dos objetivos de negócio (core business) e metodologias;
– Poilíticas internas e regulamentos (estatutos / regimentos) definidos e em conformidade com as estratégias;
– Planos de trabalho com estudo de viabilidade, orçamentos e projeções de fluxo;
– Requisitos definidos e metas (projetos e respectivas gestões);
– Capacitação e especialização para tomada de decisão, controle e execução.

Baseando-se nisso, reflita comigo, sem isenção: quais os requisitos que realmente analisamos hoje para eleger um representante, um gestor público, dentro das alternativas que “aparecem”? Imagine-se definindo um deputado federal ou um Senador ou até um Presidente da República. Não precisa me responder. Provavelmente não pensou em analisar nenhum dos conceitos colocados acima a fundo, de forma comparativa.

É fácil entender o porquê. Talvez esta informação nem esteja exatamente disponível e não é por acaso. A escolha, neste modelo, é muito mais baseada em exposição e indução do que em fatores técnicos e profissionais relativos à atividade. E quem se candidata sabe disso. Com o que você acha que um candidato a qualquer coisa hoje em dia se preocupa mais: ter mais minutos / horas de exposição e grupos de apoio ativos e ou estudar profundamente a viabillidade e o “how to” de todas as promessas que são feitas (que são nada mais, nada menos do que o que as pessoas querem ouvir) e colocadas num livreto que é sabido que será ignorado por 90% dos que tem o “poder” da escolha? Tivemos um presidente da república que foi pego mentindo experiência acadêmica em seu currículo. Isso mudou o quê? Nada, não é o foco. Mas se fosse um profissional candidato a uma vaga de uma empresa séria teria sido reprovado sumariamente no processo seletivo e colocado em black book.

As escolhas neste modelo estão baseadas quase sempre em mensagens subliminares, amizades, interesses pessoais, simpatias, mecenatos financeiros ou de influência. Praticamente nenhum tecnicismo envolvido. Pior, como o modelo das sucessões é baseado em situação e oposição, para qualquer plano diretor e projeto de longo prazo (muito maior que o tamanho dos mandatos) a sua execução por completo é uma verdadeira loteria. Quem irá se comprometer em seguir um plano que negou politicamente no passado, se vier a assumir o poder?

Este modelo era até viável num futebol em que os ganhos e os encargos atingiam montantes menores, era mais romântico e vivia praticamente das bilheterias e das vendas de jogadores. As administrações neste caso até funcionavam com diretorias esparsas e não interligadas estrategicamente, junto com conselhos deliberativos e fiscais (cujos tamanhos desnecessários só dificultam o processo de decisão, conheço um clube que tem 1500 membros quando o magic number de eficiência é 11), sem que fosse imperativo (embora devesse ser desde o início) haver dedicação exclusiva. Parece bem claro que, com a quantidade cada vez maior de ítens em matriz de receitas a serem explorados de forma ótima, com diferentes formas e técnicas de gerência e diversos ambientes de um mundo globalizado e transbordando informação, isto não tem mais como funcionar bem desta forma.

Não cabe mais:

– Presidentes, Vices, Diretores, Mecenas endinheirados etc. que não entendam do core business, só tendo representatividade política ou que vivem uma relação de “favor”, trabalhando “de graça” (nem é assim, mas não vou entrar no mérito nesta coluna) porque ganham dinheiro em outras fontes;
– Terceirizar a atividade de core business da empresa (é o que os clubes são), principalmente a estratégia e a decisão;
– Ter gente sem conhecimento explícito e tácito nos assuntos dos departamentos que dirige;
– Espaço para “aspone” ou cabo eleitoral ou puxa saco ou baba-ovos de blog de alguém com força política, procurando boquinhas e sem nenhuma qualificação técnica;

É preciso:

– Pagar bem para ter os melhores
– Exigir exclusividade. Quem trabalha para o clube tem que viver do clube.

Pois bem. Precisamos, para saírmos desta situação, mudar para um ambiente de regras diferentes e relações de trabalho diferentes. Profissionalizar ! Nenhuma novidade, todas as gestões eleitas prometem iniciar este processo lá no livrinho de promessas de campanha, aquele que você nunca viu e, se viu, não abriu e, se abriu, não entendeu como vão fazer. Fazem isso há anos, décadas, séculos até (pelo menos este e o anterior). E o que será que acontece neste tempo todo que NADA nestas estruturas mudam fundamentalmente?

Simples: Se formos analisar as gestões mais a fundo, devemos ter mais de 70 ou 80% das pessoas envolvidas não atendendo os requisitos. Temos a decisão de mudança nas mãos de pessoas que provavelmente não poderão mais participar do processo e estarão assinando a sua saída do poder. O que as estimularia a fazer, amor ao clube? Será? Teremos mesmo pessoas tão abnegadas lá? Não é o que temos visto, infelizmente.

Outro ponto importante que corrobora os anteriores é que a cooptação de contribuintes, como nos planos de sócio futebol, que é fundamental para os clubes se tratada adequadamente, trás na venda do produto a possibilidade de “escolher os seus representantes”, mas trás no pacote como efeito colateral tolher internamente a possibilidade de estes novos colaboradores trabalharem e se organizarem por algo novo. “Contribua e escolha entre nós ou nossos inimigos conhecidos, queremos o seu voto”. Você já deve ter tido a oportunidade de fazer uma crítica a uma situação e alguém ligado à gestão ter vindo com algumas bigornas na mão te chamar pra entrar e fazer melhor, não? Pois bem, eu te digo com experiência de causa, se você aceitar o convite, as portas não estarão abertas. Se estiverem, farão de tudo pra te derrubar. Não há um convite para mudança e sim para uma cooptação silenciosa.

Pois bem. Solução? Algumas idéias. Todos devemos ter algumas idéias, uns mais outros menos. O importante é estarmos dispostos a iniciar uma discussão para começar a formatar este processo de mudança. Quem fizer primeiro vai sair MUITO NA FRENTE dos outros.

Para isso, o ideal seria haver disposição de mudar de dentro pra fora. Não acontecendo, como temos visto e tentei demonstrar iniciar um processo de sentido inverso, viabilizado, pronto para ser vendido e executado. “An offer that you can’t refuse”.

Mais do que estarmos satisfeitos com o direito de optar por gestões cujas alternativas todas seguirão num modelo viciado do tipo “promete mudar, sucumbe ao processo falido e não cumpre”, temos que começar a pensar em propôr, projetar, viabilizar. Antes de escolher representantes nos clubes, precisamos criar as alternativas.

Não é nada fácil, mas alguém tem que começar a fazer. Eu gostaria muito de participar deste processo. Estamos num processo de revisão ética e profissional em andamento, no Brasil e em todo mundo. Acredito estarmos numa fase de transição para um modelo melhor, o momento é ímpar e não deveria ser perdido. Aceito companhia!

Precisamos descontar pra 7 x 2 enquanto há tempo …

Abraços

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Antônio Ramos avatar
Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

2 Comments

  1. Frank Cavaliere avatar

    Concordo! Chega de povoar o clube com “amigo dos amigos”. Como em qualquer empresa, cada departamento tem que mostrar resultados. Obviamente relacionamento, política e indicação mantém um local sólido, mas há de existir um mínimo de cobrança

  2. Haroldo Silis avatar

    Isso me fez lembrar o marketing tricolor. Não sei se ele é responsável por inserir o Fluminense com as provocações aos adversários derrotados mas, a ideia é pra lá de infantil, fico incomodado como torcedor, põe o Fluminense na mídia e como time detestado. A marca aparece mencionada N vezes e associada a um besteirol de péssimo gosto. Dar um computador conectado a internet a pessoas com idéias assim é de uma insensibilidade. Deveriam ficar em apenas exaltar os feitos mas, sem provocações.

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