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Sobre o Maracanã, Wembley e Acrópoles

Sobre o Maracanã, Wembley e Acrópoles

Durante anos a fio os ingleses se orgulham do estádio de Wembley, em Londres. Aquele que só abria para jogos da seleção inglesa, um show para multidões ou uma ou outra final de campeonato.

Na verdade, a decisão sobre quais jogos seriam disputados lá era praticamente monárquica. Talvez uma das poucas coisas em que dava palpite a tão simbólica realeza inglesa, inútil no sentido de poder e decisão dos destinos nacionais, mas um reduto de orgulho popular, tendo papel preponderante no direcionamento da nação para os aspectos culturais mais tradicionais.

Conta-me um amigo contemporâneo inglês, não consegui confirmação sobre isso, que a caríssima e deficitária manutenção do estádio fazia parte do orçamento da realeza, alguns bilhões de libras para sustentar todo aquela “soap opera” medieval em que sobrava algumas dezenas de milhões para conservar mais aquele palco para alguns capítulos imperdíveis.

Levando-se em conta que o inglês, mesmo não sendo verdade, entende-se e é entendido por muitos como criador do futebol, o esporte mais significativo já inventado e mais jogado nesta bolota azul com manchas brancas em que vivemos (sim, a Terra não é plana), podemos considerar até que este processo de transformação do estádio num templo sagrado, a ser tocado por pouquíssimos,  até fazia algum sentido.

Eis que, num determinado dia, joga-se o palco ao chão para se construir outro, mais moderno e utilizável. Reações mundiais dos tradicionalistas. Eu, inclusive:

– Nossa! E a história? Como não preservar um palco tão importante? Vão se arrepender disso num tempo futuro.

Mas como diria James Carvile: “(It’s) The economy, stupid!”

Economia quebrada, necessidade de corte de gastos, inclusive para o sitcom real, e necessidade de transformar o que estava ultrapassado e caro em algo rentável.

Fui ver hoje, por curiosidade, a programação de jogos no novo Wembley para fevereiro e pasmem: quatro jogos, um por semana. Algo inimaginável na antiga concepção. E isto significa o quê? Muito provavelmente que o estádio hoje é auto-suficiente e não é deficitário. Deve valer muito a pena para o Tottenham Hotspur e o Watford jogarem lá, como será no próximo dia 30. Tô começando a achar que eu estava errado …

E o Maracanã a ver com isso?

Tinha a mesma ou mais tradição que o Wembley e não somente para os brasileiros, mas para todo o futebol mundial. Era o estádio onde todo jogador queria jogar. O estádio escolhido pelo Santos de Pelé (na verdade por ele) para ser campeão mundial duas vezes, uma vez que não poderia jogar jogos internacionais na provinciana Vila Belmiro e no acanhado e também provinciano Pacaembú. O estádio onde jogaram os melhores jogadores e times brasileiros que, por sinal, eram ainda os (muito) melhores do mundo. Era o estádio onde todo mundo queria ir, todo mundo queria visitar. Um templo sagrado, só que dirigido para o povo.

Barato, construído basicamente em cimento e com uma concepção arquitetônica e estrutural genial, tinha instalações que geravam custos reduzidos de manutenção. A facilidade de acesso sempre proporcionou os maiores públicos da história do futebol. Assim manteve-se, praticamente intacto na sua estrutura, até a primeira reforma dita obrigatória (para alguns poucos), quando mandaram tirar as gerais e implantar cadeiras nas arquibancadas, reduzindo à metade a sua capacidade, mas aumentando muito o seu custo operacional.

O Maracanã tinha 3 a 5 jogos por semana. Era acessível aos clubes (os que reclamavam eram felizes e não sabiam) e poderia ter sido mantido em excelente estado por mais muitos anos se o orçamento para sua manutenção não fosse desviado pelos diversos processos de corrupção existentes desde sempre no Estado de “I Laugh Of January”.

Deixaram chegar quase em escombros para justificar a jogadinha recorrente da obra super faturada. Muita grana no bolso de alguns e custos maiores pra quem quisesse (tivesse que) usar.

Já falido, mas mantido espertarmente sob informação manipulada com a ajuda da mídia, o Estado licitou mais uma obra super faturada no esqueminha para a Copa, que o desfigurou e encareceu definitivamente. Esqueminha este que teve ainda como pernas compridas coisas como a desfaçatez da construção bilionária de um estádio para oitenta mil torcedores na fantasmagórica Brasília. Descalabros que todo mundo achou uma gracinha.

Depois veio tudo que já vimos: família dos donos da concedida e construtora com os sócios na cadeia, quatro ex governadores presos (outros ainda não foram, mas deveriam), estado em calamidade …  por aí vai.

De repente, hoje, me deparo com esta matéria aqui no Futebolzinho:

Clube fica só com R$ 13,6 mil da renda de mais de R$ 1 milhão da estreia no Carioca

Lembrei de Wembley … não precisávamos forçar o Maracanã a ser uma representação tradicional do futebol como aquele estádio foi (e ainda é) para os britânicos. Ao contrário daquele, o Maracanã era popular, adorado mundialmente, de forma absolutamente natural, e sempre teve condições de ser auto suficiente e acessível. Só não foi porque não deixaram.

E agora, assim como havia uma Rainha da Inglaterra para vetar os jogos de Wembley, os clubes, quebrados, vão vetar o Maracanã porque ele se tornou inviável.

Talvez os dois estádios estejam parecidos por esta característica, mas vendo pelas outras, seguindo assim, o Maracanã em breve será uma acrópole amarelada e faltando pedaços..

   It’s the corruption stupid !

 

 

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Antônio Ramos avatar
Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.
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